Crônica

Preciso fazer a barba

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Acordei triste, como tem sido nos últimos tempos. Preocupado talvez seja a palava certa… que saco, essa busca pela palavra certa. Não sei exatamente se há meses ou há algumas semanas, mas já faz mais que alguns dias. Estou acima do peso, sem dinheiro e um monte de coisa me incomoda. Preciso fazer dieta e exercício. Isso preciso de dinheiro. Já viu quanto custa academia e comida saudável? É mais barato continuar gordo. O barato sai caro lá na frente. Preciso economizar também: Baixar a conta do celular, não uso todo o plano de dados que eles me oferecem. O cigarro está tão caro que a última conta do gasto mensal já era meio salário mínimo. Preciso parar de fumar, mas vou ficar ansioso. Engordo quando fico ansioso, como bastante.

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O ex-apaixonado

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Isso te deixa completamente abobalhado. Isso, esse negócio de estar apaixonado. É uma anestesia em tempo integral. Não tem tempo ruim, cara? Um ser nesse estado com duração imprevisível constroi uma bolha semi-transparente ao redor de si e do objeto de adoração, e vê/ouve/fala tudo meio distorcido. Ah, a vida é bela, quentinha, dormir de conchinha. Um blues, nesse momento, pode não fazer muito sentido, e passa a gostar até de músicas que antes achava cafona demais. Jura de pé junto que não mudou nadinha em relação a quando estava solteiro.

Um ex-apaixonado, depois que passa o luto, a desilusão e aquele apego sufocante, percebe de forma abrupta (e às vezes dolorosa), que em algum momento essa bolha se rompeu. Não dá para especificar em que ponto isso acontece, mas é tiro e queda. Nessa etapa, é fato interagir mais nas festas, ainda que não esteja à procura de ninguém. Aliás, quando não se está com outras intenções, é bem curioso: Dança-se livremente, sem medo de soar ridículo (e quase sempre se é). Faz amizade mais facilmente, pois percebe que o mundo é feito disso mesmo. Porque o apaixonado, coitado, acha que o amor é autossuficiente e os atores ao redor, coadjuvantes.

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Sou de Áries, viu?

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O que você pensa a respeito dessas coisas de Astrologia? Eu queria dizer que sou ariano, com ascendente em Câncer. Sabe o que isso pode dizer sobre mim? Pois é, fico pensando se eu me adaptei ao que li no jornaleco ou se a culpa é mesmo esotérica.

Os nativos do signo de Áries são impulsivos. As quase três décadas de vida me conceberam, segundo os psicólogos de plantão, um pouco de inteligência emocional. Deixando o jargão de lado, quer dizer que aprendi a me controlar. Mas nem tanto. Esse negócio de elemento fogo é uma coisa meio preocupante, segundo os mais entendidos.

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Um adeus de metrô

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Os olhos inchados e profundos já entregavam uma noite mal dormida, e lágrimas, antes de sentar-se ao meu lado para esperar metrô. Lágrimas aquelas que eu tinha visto minutos atrás, quando o sol escancarava aquela situação pré-estação subterrânea.

Ela era linda. Apenas isso, como se pudesse ser apenas linda. O cabelo preso em rabo de cavalo e a ausência de maquiagem – apesar de bem vestida – entregavam alguma pressa ao sair. Cruzávamos a avenida, quando percebi que ela secava os olhos. E aquilo partiu meu coração, como se eu tivesse visto uma criança com fome. Eu só pensava em falar com ela, porque sentia que precisava ajudar. O medo de ser inconveniente prevaleceu.

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Tapa na Cara

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Excluindo-se assédio ou provocação, não há nada mais íntimo que um tapa na cara.

Depois que o dedo toca a garganta, o inferno parece ser a única salvação. Depois de tudo, algumas vão e vulgarizam o batom vermelho. Não que os homens tenham direito a opinar sobre a cor com que as damas se pintam, mas se morre a surpresa da cor, vira efemeridade; transforma a faísca – essa que precede um incêndio – em mera brasa de fim de carvão.

A rotina exclui o encanto da conquista. Sem essa de uma conquista por dia, ninguém tem fôlego pra isso. Manter a respiração, nesses casos, é, como diz o cantor Carlos Posada, o exercício diário da paixão. Quem não respira, faz do peito a morada do vazio. Depois do dedo na garganta, não existem amenidades. A coisa mais íntima – tapa na cara – vira, de fato, a única que existe.

 

Publicado originalmente em Colesterol | 20/02/2014